terça-feira, 4 de março de 2014

Joana





  Joana entra no apartamento, fecha a porta e liga o som. Busca, na música, a oportunidade de chorar ou sorrir em compasso, amar em cadência.
  Vai pro quarto, pega o livro e cai na cama. Busca, no soneto, a métrica que não encontra na vida, a coerência que não encontra no amor.
  O guarda-roupa, a cômoda, a cama e a vida consubstanciados numa bagunça só. O tratado filosófico, o espelho e a janela mostram realidades conflitantes. O mundo está vivo; o filósofo, morto.
  Do quarto, Joana não consegue compreender a mensagem escrita na calçada. Sem medo, sem hesitação, os pés descalços correm pro elevador. Lá fora, no concreto seco pelo tempo, a última palavra do último verso de um poema de amor:

                                                                                                                                                       “Viva”.

Música






O que há de tão formidável na música?
Ora, simples: ela nos permite sorrir ou chorar em compasso.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um Lugar Qualquer






Tijolo-massa-tijolo,
mãos firmes erguem
sonhos imobiliários
– precisam pagar o aluguel
de um barraco
em São Sebastião.
Existe tanta contradição
sob o céu do cerrado...

O direito está no papel;
a agonia, na fila;
a fome, na barriga;
o corpo, no relento;
e a esperança de justiça,
em fichários empilhados
numa sala escura.

É fim de tarde.
E no coração do país,
enquanto o sol se põe
num horizonte
sem perspectivas,
o ônibus fantasma desce
a Esplanada dos Ministérios;
corre em direção ao Nada.