Joana entra no apartamento, fecha a porta e liga o som. Busca, na música, a oportunidade de chorar ou sorrir em compasso, amar em cadência.
Vai pro quarto, pega o livro e cai na cama. Busca, no soneto, a métrica que não encontra na vida, a coerência que não encontra no amor.
O guarda-roupa, a cômoda, a cama e a vida consubstanciados numa bagunça só. O tratado filosófico, o espelho e a janela mostram realidades conflitantes. O mundo está vivo; o filósofo, morto.
Do quarto, Joana não consegue compreender a mensagem escrita na calçada. Sem medo, sem hesitação, os pés descalços correm pro elevador. Lá fora, no concreto seco pelo tempo, a última palavra do último verso de um poema de amor:
“Viva”.

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