terça-feira, 26 de abril de 2022

Pau que Nasce Torto

 

Sábado. Início de tarde. Quarto pequeno e íntimo.

Enquanto beija e lambe os dedos dos pés delicados da mulher ofegante deitada sobre a cama, como que apreciando um apetitoso pedaço de carne cujo melhor tempero fica perto do osso, ele se lembra de quando a reencontrou por acaso em uma tarde de domingo.

Naquela ocasião, o rosto dela também estava ruborizado. Mas era um rubor diferente. Era de choro.

Agora, as maçãs do rosto da mulher estão coradas. Contudo, o vermelho é de tesão. Ela umedece ainda mais a boca rosada e olha para ele fixamente. 

Beijando-a, partindo dos pés, indo pelas pernas, ele segue em direção ao objetivo. Não tem pressa.

Ela percebe o que se aproxima e não pode evitar os pequenos tremores.

***

Antes. Em um lugar público qualquer.

Naquela tarde de domingo, ela havia terminado um namorado antigo. Chorava mágoas recentes. Sentia-se humilhada, mesmo sem razão para vergonha. As lágrimas eram torrenciais; o ranho, vexatório. Arfava, soluçava. Um verdadeiro papelão. “Nunca mais vou confiar em homem”, sussurrava entre os dentes cerrados de raiva. “Desgraçado!

Já ele fugia de casa. Corria do mau humor da mulher, que, pouco depois de parir, passou a rejeitá-lo sexualmente. Queria distância do filho recém-nascido e sentia vergonha por isso. De forma veemente, tentava negar que, mais cedo, cogitara matar a criança afogada na banheira. 

– Fernanda, o que houve? – ele perguntou ao vê-la chorar naquele lugar público.

Ao rever um grande amigo da época de escola, talvez por saudades, talvez pelo desamparo recentemente sentido, ela se lançou sobre os braços dele, apertando-o contra os seios. Ao fazê-lo, por puro desabafo, chorou ainda mais, balbuciando palavras sem sentido.

Ao senti-la assim tão perto, ele foi surpreendido por uma comichão repentina e tentou disfarçar a empolgação do pau.

Ela percebeu, mas se afastou, fingindo não notar. Notou a aliança no dedo dele.

Fernanda se acalmou aos poucos, retirando a atenção da ferida recentemente aberta.

De modo descontraído, eles conversaram por algumas horas naquele espaço público. Relembraram os bons tempos de escola e como a vida era mais fácil.

– Carlos, vou indo, meu bem – ela falou em tom de despedida. – Foi ótimo te reencontrar. Obrigada mesmo por me ouvir.

Eles se beijaram no rosto de forma desajeitada.

Ela foi a primeira a manifestar a intenção de sair do lugar. Mas, enquanto já caminhava para ir embora, olhou para trás.

– Você tem Instagram? – ela perguntou com cara de menina tímida.

Foda-se se os homens não prestam!”, ela pensou. “Dessa vez, eu não serei a corna”.

***

Alguns meses depois. De volta a um sábado em um quarto pequeno e íntimo.

Na cama, nus e suados, eles são quase um. Inusitadamente, a posição é papai e mamãe. Ela o envolve com os braços e pernas, e a cama bate com cada empurrão dado pelo movimento que ele faz ao fodê-la com vigor.

De súbito, ele se levanta e corre em direção ao espelho.

– Que porra é essa que você tá fazendo no meu pescoço, Fernanda?! – ele pergunta furioso ao ver a marca do chupão. – Você tá louca?! Caralho!

Ela senta na cama e começa a gargalhar.

– Louca! – ele diz revoltado, enquanto bate com a mão aberta no rosto dela.

Quem disse que a vergonha do tapa é o barulho que o revela ao público, sabe pouco sobre tapas. Mesmo quando desferida na intimidade, uma bofetada machuca o orgulho.

Ela coloca as mãos sobre o próprio rosto. Por um momento, parece não acreditar.

– Desgraçado! – ela fala rangendo os dentes. – Tá pensando que sou a puta da sua mulher, porra?! – ela finalmente grita em desafio, correndo em direção a ele, para estapeá-lo.

Ele a afasta; dá um novo tapa no rosto dela. Fernanda senta chorando perto da janela do quarto. 

Ao perceber a dimensão do que fez, logo em seguida, Carlos senta ao lado dela, abraçando-a.

Nus, sentados, abraçados e chorando, os dois ficam calados por um tempo.

– Você me perdoa? – ele finalmente pergunta, enxugando o rosto dela com a mão.

Ela diz que sim com a cabeça. Em seguida, acrescenta:

– Eu te amo, seu idiota!

Novamente, ambos ficam sem falar por um tempo.

Pela janela, é possível perceber que a escuridão e o frio da noite estão chegando. Lá fora, na rua, as luzes dos postes começam a acender.

Ele percebe que está quase na hora de voltar para casa. Esboça uma leve irritação ao lembrar do chupão no pescoço, porém se controla.

– Amor, tô grávida – ela diz de repente, sem preparar o momento.

– Mas você não usa pílula, Fê?

Novo silêncio.

Ele fica lívido. Ela sente que o corpo de Carlos está mais frio que o normal.

O homem pula pela janela.



Lá fora, ele abre os olhos e se descobre vivo, mas com uma dor lancinante. Vê a própria perna torta por uma fratura e quase desmaia de novo.

Não fosse a pequena altura da janela, seria possível dizer que havia uma pretensão real de suicídio.

Do quarto no primeiro andar, ela desce correndo, cobrindo ou tentando cobrir a nudez com a blusa que ele havia deixado jogada ao lado da cama.

Ao vê-lo caído na rua, Fernanda senta ao lado dele.

– Seu louco! – ela diz, curvando-se e dando beijinhos carinhosos no rosto do homem ferido. – Você poderia ter morrido! Tá bem? Consegue levantar?

Ambos levantam. Ele se apoiando no ombro dela e na perna boa.

Ela continua a beijá-lo e acariciá-lo.

– Meu louquinho! – ela diz entre um beijo e outro. – Você poderia ter morrido, gatinho...

E mais beijos e mais carinhos.

Em um dado momento, eles finalmente percebem que estão fazendo cena na rua: ele totalmente nu e com uma perna quebrada, ela vestindo apenas a blusa.

Mas não é só.

Percebem que as pessoas passam apontando e rindo: mais torta que a perna quebrada é a ereção do miserável amante. Um vexame.


domingo, 10 de março de 2019

 

 Oração do Dia 14 de Março


Maria, Mãe de Deus, rogai por nós
Ainda somos pecadores
Rainha, Mãe de misericórdia, a dor é atroz
Impingimos às chagas flores
Eia, pois, advogada nossa:
Lances sobre nós olhos de misericórdia
Limpes o sangue de Eva aspergido na face de Caim
Ensines amor e respeito aos filhos da terra tupiniquim

Piedosa, ó doce! Somente virgem a aceitamos, Maria
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, pois assim não somos dignos
Endeusamos o fruto. Esquecemos o ventre
Salves, Rainha, os filhos dessa varonil aporia
Encharcados estão em um vale de lágrimas e sangue
Não sabem que bendita sóis vós, mulher
Testemunhes a agonia das filhas de Eva
Ensines amor e respeito aos homens da terra tupiniquim

terça-feira, 21 de março de 2017



Devaneios da Madrugada


És bela inspiração
que, embora sempre desejada,
encontra-me de sobressalto
em solitárias madrugadas,
trazendo calor à m'alma.


Lábio vermelho
e voluptuoso conhecedor
dos meus desejos mais íntimos.
Mesmo agora,
posso ouvi-la sussurrar o inaudível,
e minha pele arrepia
ante a promessa do seu beijo.

Santa sem altar ou religiosa beatitude,
foste capaz de transformar em carne
coração petrificado
pelas agruras da vida.
Fizeste o milagre de oferecer caminho
a andarilho perdido, pobre e tolo,
que deseja voltar para um lugar que nunca conheceu.

Logo pela manhã,
sento-me à mesa,
com lápis e papel
ao alcance da mão,
mas não consigo encontrá-la…
Por isso, mesmo tão cedo,
já anseio pelo levantar das estrelas
e pela lua no centro do céu.

Pois desejo vê-la de novo,
Poesia,
nesse nosso mundo secreto,
morada dos loucos
e dos apaixonados
– entre o limiar da realidade
e o oceano do sono mais profundo –,
paraíso cujo portal se abre, sem aviso,
nas solitárias madrugadas do poeta.

Sinto sua falta,
Poesia,
mesmo sem nunca tê-la tocado…

terça-feira, 4 de março de 2014

Joana





  Joana entra no apartamento, fecha a porta e liga o som. Busca, na música, a oportunidade de chorar ou sorrir em compasso, amar em cadência.
  Vai pro quarto, pega o livro e cai na cama. Busca, no soneto, a métrica que não encontra na vida, a coerência que não encontra no amor.
  O guarda-roupa, a cômoda, a cama e a vida consubstanciados numa bagunça só. O tratado filosófico, o espelho e a janela mostram realidades conflitantes. O mundo está vivo; o filósofo, morto.
  Do quarto, Joana não consegue compreender a mensagem escrita na calçada. Sem medo, sem hesitação, os pés descalços correm pro elevador. Lá fora, no concreto seco pelo tempo, a última palavra do último verso de um poema de amor:

                                                                                                                                                       “Viva”.

Música






O que há de tão formidável na música?
Ora, simples: ela nos permite sorrir ou chorar em compasso.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um Lugar Qualquer






Tijolo-massa-tijolo,
mãos firmes erguem
sonhos imobiliários
– precisam pagar o aluguel
de um barraco
em São Sebastião.
Existe tanta contradição
sob o céu do cerrado...

O direito está no papel;
a agonia, na fila;
a fome, na barriga;
o corpo, no relento;
e a esperança de justiça,
em fichários empilhados
numa sala escura.

É fim de tarde.
E no coração do país,
enquanto o sol se põe
num horizonte
sem perspectivas,
o ônibus fantasma desce
a Esplanada dos Ministérios;
corre em direção ao Nada.