Sábado. Início de tarde. Quarto pequeno e íntimo.
Enquanto beija e lambe os dedos dos pés delicados da mulher ofegante deitada sobre a cama, como que apreciando um apetitoso pedaço de carne cujo melhor tempero fica perto do osso, ele se lembra de quando a reencontrou por acaso em uma tarde de domingo.
Naquela ocasião, o rosto dela também estava ruborizado. Mas era um rubor diferente. Era de choro.
Agora, as maçãs do rosto da mulher estão coradas. Contudo, o vermelho é de tesão. Ela umedece ainda mais a boca rosada e olha para ele fixamente.
Beijando-a, partindo dos pés, indo pelas pernas, ele segue em direção ao objetivo. Não tem pressa.
Ela percebe o que se aproxima e não pode evitar os pequenos tremores.
***
Antes. Em um lugar público qualquer.
Naquela tarde de domingo, ela havia terminado um namorado antigo. Chorava mágoas recentes. Sentia-se humilhada, mesmo sem razão para vergonha. As lágrimas eram torrenciais; o ranho, vexatório. Arfava, soluçava. Um verdadeiro papelão. “Nunca mais vou confiar em homem”, sussurrava entre os dentes cerrados de raiva. “Desgraçado!”
Já ele fugia de casa. Corria do mau humor da mulher, que, pouco depois de parir, passou a rejeitá-lo sexualmente. Queria distância do filho recém-nascido e sentia vergonha por isso. De forma veemente, tentava negar que, mais cedo, cogitara matar a criança afogada na banheira.
– Fernanda, o que houve? – ele perguntou ao vê-la chorar naquele lugar público.
Ao rever um grande amigo da época de escola, talvez por saudades, talvez pelo desamparo recentemente sentido, ela se lançou sobre os braços dele, apertando-o contra os seios. Ao fazê-lo, por puro desabafo, chorou ainda mais, balbuciando palavras sem sentido.
Ao senti-la assim tão perto, ele foi surpreendido por uma comichão repentina e tentou disfarçar a empolgação do pau.
Ela percebeu, mas se afastou, fingindo não notar. Notou a aliança no dedo dele.
Fernanda se acalmou aos poucos, retirando a atenção da ferida recentemente aberta.
De modo descontraído, eles conversaram por algumas horas naquele espaço público. Relembraram os bons tempos de escola e como a vida era mais fácil.
– Carlos, vou indo, meu bem – ela falou em tom de despedida. – Foi ótimo te reencontrar. Obrigada mesmo por me ouvir.
Eles se beijaram no rosto de forma desajeitada.
Ela foi a primeira a manifestar a intenção de sair do lugar. Mas, enquanto já caminhava para ir embora, olhou para trás.
– Você tem Instagram? – ela perguntou com cara de menina tímida.
“Foda-se se os homens não prestam!”, ela pensou. “Dessa vez, eu não serei a corna”.
***
Alguns meses depois. De volta a um sábado em um quarto pequeno e íntimo.
Na cama, nus e suados, eles são quase um. Inusitadamente, a posição é papai e mamãe. Ela o envolve com os braços e pernas, e a cama bate com cada empurrão dado pelo movimento que ele faz ao fodê-la com vigor.
De súbito, ele se levanta e corre em direção ao espelho.
– Que porra é essa que você tá fazendo no meu pescoço, Fernanda?! – ele pergunta furioso ao ver a marca do chupão. – Você tá louca?! Caralho!
Ela senta na cama e começa a gargalhar.
– Louca! – ele diz revoltado, enquanto bate com a mão aberta no rosto dela.
Quem disse que a vergonha do tapa é o barulho que o revela ao público, sabe pouco sobre tapas. Mesmo quando desferida na intimidade, uma bofetada machuca o orgulho.
Ela coloca as mãos sobre o próprio rosto. Por um momento, parece não acreditar.
– Desgraçado! – ela fala rangendo os dentes. – Tá pensando que sou a puta da sua mulher, porra?! – ela finalmente grita em desafio, correndo em direção a ele, para estapeá-lo.
Ele a afasta; dá um novo tapa no rosto dela. Fernanda senta chorando perto da janela do quarto.
Ao perceber a dimensão do que fez, logo em seguida, Carlos senta ao lado dela, abraçando-a.
Nus, sentados, abraçados e chorando, os dois ficam calados por um tempo.
– Você me perdoa? – ele finalmente pergunta, enxugando o rosto dela com a mão.
Ela diz que sim com a cabeça. Em seguida, acrescenta:
– Eu te amo, seu idiota!
Novamente, ambos ficam sem falar por um tempo.
Pela janela, é possível perceber que a escuridão e o frio da noite estão chegando. Lá fora, na rua, as luzes dos postes começam a acender.
Ele percebe que está quase na hora de voltar para casa. Esboça uma leve irritação ao lembrar do chupão no pescoço, porém se controla.
– Amor, tô grávida – ela diz de repente, sem preparar o momento.
– Mas você não usa pílula, Fê?
Novo silêncio.
Ele fica lívido. Ela sente que o corpo de Carlos está mais frio que o normal.
O homem pula pela janela.
Lá fora, ele abre os olhos e se descobre vivo, mas com uma dor lancinante. Vê a própria perna torta por uma fratura e quase desmaia de novo.
Não fosse a pequena altura da janela, seria possível dizer que havia uma pretensão real de suicídio.
Do quarto no primeiro andar, ela desce correndo, cobrindo ou tentando cobrir a nudez com a blusa que ele havia deixado jogada ao lado da cama.
Ao vê-lo caído na rua, Fernanda senta ao lado dele.
– Seu louco! – ela diz, curvando-se e dando beijinhos carinhosos no rosto do homem ferido. – Você poderia ter morrido! Tá bem? Consegue levantar?
Ambos levantam. Ele se apoiando no ombro dela e na perna boa.
Ela continua a beijá-lo e acariciá-lo.
– Meu louquinho! – ela diz entre um beijo e outro. – Você poderia ter morrido, gatinho...
E mais beijos e mais carinhos.
Em um dado momento, eles finalmente percebem que estão fazendo cena na rua: ele totalmente nu e com uma perna quebrada, ela vestindo apenas a blusa.
Mas não é só.
Percebem que as pessoas passam apontando e rindo: mais torta que a perna quebrada é a ereção do miserável amante. Um vexame.



